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OPINIÃO

Psicóloga Organizacional explica o porquê de nos machucarmos tanto

Em seu artigo desta semana, Vanessa Coan esclarece pontos importantes para conseguirmos superar os desafios que nos afetam

Postado em 28/02/2018 às 22:32 |

POR QUE NOS MACHUCAMOS TANTO?

PARTE 01

No último artigo, deixei a dica para você, caro leitor, de que trataria, hoje, sobre relacionamentos. Mas, antes de abordarmos o que acontece em relação às pessoas que nos cercam, é necessário tratar do relacionamento com o EU, ou seja, como me relaciono comigo, como deixo questões externas interferirem no que SOU e como proceder para me sentir LIVRE.

Hoje quero falar sobre uma técnica chamada resiliência, ou otimismo, estudada por Barbara Fredrickson e Martin Seligman. A ideia de resiliência é tão forte, que os Estados Unidos já investiram bilhões de dólares nessa técnica para trabalhar traumas de guerra que afetam centenas de soldados americanos e seus familiares.

Vale a pena falar sobre isso? Sim, vale. E vale também nos perguntarmos: Por que somos tão afetados por fatores externos, por que nos machucamos tanto? Por que entramos em estados emocionais desfavoráveis por fatores que não podemos controlar? 

A explicação é muito simples! Nos deixamos afetar, porque há regras internas a nos dizer como o mundo deve ou não funcionar. Se fui educado em uma sociedade cujo pensamento é o de que uma pessoa não pode ofender a outra, quando alguém me insulta, me sinto ofendido. É uma questão de regra social, pessoal, moral na qual fui criado. 


Significa dizer que todas as vezes que entramos em um estado emocional, de tristeza ou de alegria, provocado por algum fator externo sobre o qual não temos controle, isso nos afeta. Em relação à felicidade, posso dizer que todas as vezes que nos sentimos felizes, plenos, isso acontece porque as situações vividas estão de acordo com aquilo em que acreditamos.  Sempre que nos sentimos apaixonados, amados ou amando, significa que o que entendemos sobre paixão e amor está alinhado com a vida ao nosso redor. Porém, todas as vezes que nos frustramos, nos sentimos abandonados, isso acontece porque as regras do mundo exterior não estão condizentes com nossas crenças e o que esperamos das pessoas, da vida. Em outras palavras, nossa compreensão do mundo não está adequada com os sentimentos que o mundo ao redor nos provoca. 

Mas preciso dizer uma coisa: não temos o poder de mudar regras externas, mudar determinados acontecimentos quando eles não dependem unicamente da nossa ação. Não conseguimos manipular o mundo para torná-lo de acordo com o que consideramos certo ou errado. O que podemos fazer, é nos adaptarmos aos acontecimentos de acordo com o modelo de mundo no qual fomos criados, não deixando que os eventos externos sobre os quais não temos controle nos causem sofrimento. Isso nos traz liberdade. 


Em geral, nos deixamos afetar por pequenas coisas da vida, situações com as quais poderíamos lidar de outra maneira sem ser pelo sofrimento, o que pode ser conseguido por meio da resiliência. Cito como exemplo um caso corriqueiro: você chega no trabalho, um colega não responde ao seu cumprimento. E você fica ofendido. Outro exemplo: no seu aniversário, a maioria dos amigos e até familiares esqueceu de ligar, mandar uma mensagem. E isso o magoa, lhe dá a sensação de ter sido esquecido. A chance de você se frustrar é enorme, porque você tem regras muito elevadas sobre as pessoas. Você espera delas aquilo que talvez elas não possam lhe dar ou que, por motivos alheios à vontade delas, não podem corresponder aos seus sentimentos, à sua espera.

Então, vou passar dois conceitos e espero que você os anote para a sua vida. Primeiro como disse Tim Hansei, a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Entenda isso! E o segundo: expectativa mal dimensionada é frustração! Geralmente você sofre por ter altas expectativas sobre o comportamento do outro. E quando você sente dor, ao invés de resolver o problema rapidamente, sofre, porque suas expectativas em relação ao mundo são muito elevadas. 


Algumas experiências que observei me mostram que há situações pelas quais não deveríamos nos permitir passar. Uma vez, em São Paulo, quando saía de um hotel com um colega de curso, nos detivemos na porta giratória, porque meu colega pediu a uma mulher que estava ao nosso lado que entrasse primeiro. Mas ela vira-se para ele e pergunta - O quê? - Ele repetiu, - Por favor, pode ir na frente. Ao que ela retrucou: - O que você está querendo? Olhar meu bumbum? - Ficamos parados, nos olhando, tentando entender a reação daquela mulher. O que penso hoje: como a regra da pessoa é tão elevada a ponto de permitir que qualquer pessoa a faça sentir-se mal?

Por incrível que pareça, naquele mesmo dia cheguei no hotel, liguei a televisão e estava passando uma reportagem de uma catástrofe na China, não lembro exatamente o que ocorreu, mas mostrava uma mulher entregando flores a um bombeiro. Quando agradeceu ao homem por ter salvo a vida de seu filho, vem o impacto: o menino, com cerca de dez, doze anos, está sentado em uma cadeira de rodas, sem as duas pernas e os dois braços. E me perguntei: quantas mães numa situação como aquela estariam arrasadas, afundadas, aterrorizadas? Como uma mãe pode sentir alegria quando a outra talvez fosse achar que Deus não estivesse trabalhando a seu favor, e por que ser tão castigada?

O que tenho a dizer: você não pode controlar eventos externos que acontecem e interferem em sua vida, mas pode controlar o que você vai sentir em relação a isso e como irá agir diante de uma determinada situação. O controle sobre os próprios sentimentos pode dar a você a sensação de liberdade.

A decisão de como deseja viver a própria vida é sua. O modo como deixará que eventos sobre os quais você não tem controle vão refletir sobre ela é o que irá determinar seu sucesso, sua felicidade, não só no presente, porque sua percepção será refletida na energia que terá para construir seu futuro. 


E pergunto: depende de quem a mudança de regras da sua vida? Respondo: somente de você. É necessário esforço? Sim, porque a dor é inevitável, mas, como foi dito, o sofrimento é opcional.

Então, vou falar sobre duas técnicas criadas para lidar com situações, desde as mais banais até traumas de guerra e da vida cotidiana. 

Primeiro, você precisa entender o seguinte:  mudanças são possíveis quando você não está feliz. Ou muda o modelo de mundo ou muda a condição de vida que experimenta. Se as coisas não estão bem, primeiramente muda-se o modelo de mundo para você se sentir bem, ou seja, modifica as próprias regras ou a percepção interna de como o mundo deveria funcionar. Você precisa ser resiliente, ser otimista. E se você pode interferir nesse mundo, para que ele chegue no seu ideal, pense em como você gostaria que fosse e tome alguma atitude. Mas, primeiro, aceite e fique bem, depois tente influenciar o mundo do jeito que você deseja que ele se torne.

Há formas de mudar-se internamente, de sentir a dor, mas não a tornar um sofrimento constante. Sobre isso, vou conversar com você na parte 2 do artigo. Me espere, que tenho dicas e exemplos importantes para refletirmos juntos. 


Vanessa Fernandes Coan / Master Coach e Psicóloga Organizacional

PRECISAMOS ENTENDER

Não temos o poder de mudar regras externas, mudar determinados acontecimentos quando eles não dependem unicamente da nossa ação.

Vanessa Fernandes Coan / Master Coach e Psicóloga Organizacional


Parte 02 sai no próximo domingo (04).

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